terça-feira, março 03, 2009

Senso de Justiça

Quantas vezes, você e eu já tomamos partido contra alguém, porque acreditávamos que essa pessoa tinha que pagar pelos seus erros? Quantas vezes, fomos implacáveis ao vermos através das mídias, pessoas que cometeram crimes bárbaros sentenciando-os a prisões perpétuas, pena de morte e coisas assim? O desejo de se fazer “justiça” está impregnado em nós. Já parou pra pensar sobre isso? Não podemos ver um ato de injustiça, que já queremos tomar a situação em nossas mãos e resolvê-la, segundo o nosso conceito de justiça.

Sabe onde está a ironia da situação? Não somos justos, e não queremos ser justos quando estamos envolvidos no contexto. Seja de forma direta ou indireta, quando a situação nos atinge, então mudamos os argumentos, mudamos o ponto de vista, mudamos até a sentença.

Ao me deparar com essa questão de justiça, olhando para mim mesmo entro num conflito profundo pois, ao olhar para meu senso de justiça percebo, que sou em quase todo o tempo um carrasco das pessoas, enquanto que comigo ou com os meus, sou de uma brandura que chega a ser palpável.

Ao ler a história da mulher que foi apanhada em pleno ato de adultério, começo montar em minha cabeça o cenário do que estava acontecendo naquele lugar.

Primeiro, Jesus, foi até o Monte das Oliveiras (a Bíblia não diz o que Ele foi fazer lá, ou seja, qualquer comentário é mera especulação. Claro que é natural supôr que Cristo havia ido orar ), voltou pela madrugada novamente ao templo, pessoas vieram ter com Ele e assentado os ensinava. Sobre o quê exatamente Jesus estava ensinando não saberemos, podemos até especular, sobre amor, fé, compaixão, perdão, tolerância, em fim, qualquer uma dessas coisas ou outras que sabemos que Jesus tinha o prazer de ensinar.

Tudo corria bem até que de repente, aquele momento sereno, tranqüilo, é interrompido de uma maneira tão abrupta, tirando assim toda aquela paz e trazendo em seu lugar, a violência, a intolerância, a exposição pública. Eu imagino, aquelas pessoas absortas, embriagadas por tão maravilhosas palavras, serem tomadas de um susto, por ouvirem de uma hora para outra numa fração de segundos, gritarias, balburdias, acusações e ainda assistirem a uma cena dantesca. Uma mulher sendo arrastada por homens, um homem em seu juízo normal, jamais arrastaria uma mulher, pela consciência da dor, sem falar na humilhação que este causaria a tal mulher. Mas aqueles homens estavam tomados de um sentimento de “justiça” e a tal mulher em questão não era em nada inocente.

Você já parou para pensar no que estava acontecendo? Era um horário diurno, onde as pessoas deveriam estar trabalhando, e aquela mulher sem nenhum pudor estava enredando em seus braços e pernas, com palavras suaves e sedutoras, beijos ardentes o marido de alguém, ou o filho. Não, ela não era em nada inocente, ela sabia dos riscos, ela conhecia a lei mas preferiu deliberadamente desafiá-la. Ela provavelmente era paga pelos seus “dotes”, ela se divertia com o marido de alguém enquanto a esposa desse mesmo alguém ficava o esperando em casa, preocupada por já haver passado a hora do marido chegar, esta esposa já estava com a comida pronta, a casa arrumada, os filhos banhados e trocados só esperando pelo pai que chegaria a qualquer momento, mas no caminho pra casa havia uma leviana que seduzia esse homem tirando-lhe o pouco que ganhava com suas juras de amor.

Você já imaginou que o homem que estava com aquela mulher poderia ser seu marido? Ou você homem já parou para pensar que enquanto sua esposa está em casa, aguardando-o tão dedicada você está se refestelando com outra, deixando seu pouco dinheiro em troca de mentiras, ditas com suavidade e sedução, mas mentiras? Estou perguntando isso porque já pensei que poderia perfeitamente ser eu este homem. É, pensando e avaliando bem, uma mulher como essa têm que morrer mesmo, uma mulher assim não pode simplesmente desafiar os valores morais, seduzir os homens trazendo sobre seus lares a desgraça, o infortúnio, sim essa mulher tem que pagar o preço pelo seu pecado sim, e se a lei diz que mulheres assim devem ser apedrejadas, então caiamos todos em cima dela e façamos com toda nossa justiça se cumprir a lei. Quem concordar comigo basta dizer; Sim eu concordo!

Mas voltando à história, aqueles homens interromperam a Jesus, pegaram aquela mulher que estava sendo arrastada, levantaram-na do chão e perguntaram para Ele, o que deveria ser feito já que a lei mandava matar. Ora, segundo as escrituras aqueles homens agiram assim porque queriam ter do que acusarem a Jesus, mas se Jesus concordasse com a lei, em que Ele estaria agindo errado, sendo que a própria lei mandava que assim o fizesse. Mas não é esse o ponto que me chama a atenção. O que de fato me faz refletir sobre meu conceito de justiça, é saber que Jesus voltou a escrever no chão, e para mim o recado de Jesus é bem claro com essa atitude.

“Não faço parte desse tipo de jugamento onde as pessoas são previamente condenadas. Não faço parte desse grupo de pessoas que se vestem de uma capa de “justiça” para humilhar, maltratar, expôr as pessoas por seu comportamento. Não faço parte dos que jugam, faço parte dos que perdoam”.

O mais incrível que a própria mulher não entendeu isso, as pessoas foram embora pois perceberam que não teriam o apoio que buscavam, e ela continuou lá parada, esperando alguma crítica, algum sermão. Quando Jesus olha para ela e pergunta onde estavam os acusadores que a levaram até ele, sua resposta foi a mais “infantil”, possível; foram embora.

Tomar a decisão acertada, quando se trata de justiça ao olhar para o que aconteceu, percebo que meu senso de justiça é mais injusto, é mais carrasco, é mais perverso do que o que eu gostaria que fosse. Quando faço uma análise sincera do meu senso de justiça, percebo que sou aquele que arrasta o “culpado”, que o expõe, que o humilha frente a todos, sem nenhum sentimento de misericórdia, mas me alegro ainda assim, pois afinal agi com justiça.

Texto João 8. 1-11.

Que Deus, com sua justiça e eqüidade, tenha misericórdia de minha alma.

Que Deus, nos abençoe sempre e sempre..

Cleiton Ramos

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